TEMPOS DE RESPOSTA NO TRATAMENTO DO INFARTO AGUDO DO MIOCÁRDIO COM SUPRA DE ST (IAMCST) E A NECESSIDADE DE POLÍTICAS PÚBLICAS COM METAS DEFINIDAS
Infarto Agudo do Miocárdio; IAMCST; Tempo Porta-Balão; Tempo Total de Isquemia; Políticas Públicas de Saúde; Intervenção Coronariana Percutânea.
O Infarto Agudo do Miocárdio com Supradesnivelamento do Segmento ST
(IAMCST) constitui uma das principais causas de morbimortalidade
cardiovascular em âmbito global, sendo o tempo total de isquemia um
preditor determinante para a sobrevida e a preservação da função
ventricular. Esta tese de doutorado, estruturada a partir da integração de
uma revisão sistemática da literatura e de um estudo original de registro de
mundo real, teve como objetivo analisar os tempos de resposta no
tratamento do IAMCST e fundamentar a necessidade de políticas públicas
com metas definidas para a otimização desses fluxos. A investigação
consistiu em um estudo observacional retrospectivo realizado em um
hospital terciário de referência em cardiologia, analisando 730 pacientes
submetidos à Intervenção Coronariana Percutânea primária (ICPP). O perfil
sociodemográfico e clínico da amostra evidenciou uma predominância do
sexo masculino (65,8%) e de idosos (52,9% com idade superior a 60 anos),
com alta prevalência de comorbidades, destacando-se a hipertensão arterial
sistêmica (70,7%) e o diabetes mellitus (33%).Os resultados revelaram
tempos de resposta significativamente superiores aos preconizados pelas
diretrizes internacionais. A mediana do tempo total de isquemia foi de 570
minutos (Intervalo Interquartil - IIQ: 390 – 1.380 minutos), configurando um
atraso crítico de 9,5 horas. A análise dos componentes desse atraso
demonstrou que a maior barreira reside na fase pré-hospitalar, com uma
mediana de 420 minutos (IIQ: 240 – 720 minutos) entre o início da dor e o
primeiro contato médico, refletindo a dificuldade da população no
reconhecimento dos sintomas. O tempo porta-balão apresentou mediana de
120 minutos (IIQ: 90 – 335 minutos), o dobro do limite ideal de 60 minutos
recomendado para centros com hemodinâmica. Em termos de desfechos
clínicos, a taxa de mortalidade hospitalar foi de 7,0%, com ocorrência de
trombose de stent em 1,5% dos casos e necessidade de intubação em
4,7%. Foi identificada uma associação estatisticamente significativa entre o
aumento dos tempos de isquemia e a piora do prognóstico: pacientes com
maiores tempos de isquemia total (p=0,008) e maiores tempos porta-balão
(p=0,022) apresentaram períodos de internação hospitalar prolongados (>10
dias). Conclui-se que o atraso na reperfusão é multifatorial e sistêmico,
exigindo uma resposta que transcenda a infraestrutura hospitalar isolada. A
tese propõe a implementação de políticas públicas estruturantes baseadas
nos pilares: (1) educação permanente em saúde para reduzir o tempo de
decisão do paciente; (2) integração tecnológica e telemedicina para agilizar
o diagnóstico e o atendimento pré-hospitalar; (3) regionalização dos
serviços de hemodinâmica para garantir equidade no acesso; (4)
padronização dos fluxos assistenciais com protocolos bem estruturados e
(5) instituição dos tempos de isquemia como indicadores prioritários de
gestão no Sistema Único de Saúde (SUS).