AVALIAÇÃO DAS MANIFESTAÇÕES MUSCULOESQUELÉTICAS SEGUNDO A POSITIVIDADE PARA OS AUTOANTICORPOS ANTI-CCP E FATOR REUMATOIDE NAS FASES CLÍNICAS DA FEBRE CHIKUNGUNYA
Febre Chikungunya, Autoanticorpos, Anticorpo Antiproteína
Citrulinada, Fator Reumatoide, Artralgia
As manifestações musculoesqueléticas (MME) da Chikungunya podem, a fase
crônica, mimetizar a artrite reumatoide, tanto pelo quadro clínico quanto pela
ocorrência de autoanticorpos. Contudo, a relação entre a positividade para
autoanticorpos e o perfil musculoesquelético nas diferentes fases clínicas da
doença ainda é pouco compreendida. Este estudo teve como objetivo
caracterizar as MMEs em indivíduos com Chikungunya segundo a positividade
para os autoanticorpos anti-CCP e Fator Reumatoide (FR), em diferentes fases
da doença. Trata-se de um estudo de coorte prospectiva com análise
retrospectiva dos dados de 48 indivíduos com diagnóstico confirmado para
Chikungunya, recrutados entre 2020 e 2022, durante a fase aguda ou
subaguda. Os indivíduos foram acompanhados por no mínimo 365 dias após
início dos sintomas, no Serviço de Reumatologia do Hospital das Clínicas da
Universidade Federal de Pernambuco (HC-UFPE) e tiveram dados
sociodemográficos e clínicos coletados, além de amostras sanguíneas para
obtenção de soro/plasma. Os autoanticorpos (FR IgM e anti-CCP IgG) foram
detectados através de ELISA (EUROIMMUN). A análise estatística foi
conduzida no R Studio, adotando-se p < 0,05. Os participantes incluídos tinham
média de idade dos indivíduos foi de 53,4 anos e o tempo médio de doença era
de 20,5 dias, sendo a maioria recrutado na fase aguda (52,1%). A maioria era
do sexo feminino (72,9%) e pardos (54,2%). Hipertensão arterial sistêmica foi a
comorbidade mais frequente (35,4%). Além de artralgia (97,9%) e febre
(83,3%), os sintomas mais frequentes foram cefaleia (66,7%), rash cutâneo e
fadiga (64,6% ambos). A maioria apresentou dor articular (91,7%), fadiga
(81,2%) e avaliação global da doença (87,5%) de moderada a intensa (4 a 10
na EVA). Os indivíduos tinham em média 12 articulações dolorosas, sendo as
mais frequentemente acometidas o tornozelo (83,3%), dedos das mãos
(77,1%), joelho e punho (64,6%), num padrão poliarticular (60,4%). Dentre os
48 indivíduos, 23 (48%) indivíduos apresentaram soropositividade para pelo
menos um autoanticorpo: 20 (41,7%) foram exclusivamente positivos para o
FR, 2 para o anti-CCP (4,2%), e 1 indivíduo duplo-positivo (2,1%). Não foram
observadas diferenças significativas nas características sociodemográficas, nas
comorbidades e sintomas. Dentre as manifestações musculoesqueléticas,
observou-se que, no início da doença, indivíduos com autoanticorpos positivos
apresentaram maior número médio de articulações dolorosas (12,3 ± 8,8; p =
0,021). Não foram observadas diferenças entre positivos e negativos na
cronicidade após 90 dias do início dos sintomas, nem após 1 ano de
acompanhamento. Dentre os 23 indivíduos positivos para autoanticorpos, um
indivíduo positivo para anti-CCP e 3 para FR apresentaram sororreversão. Em
contrapartida, no intervalo de 1 ano, dentre os 45 pacientes inicialmente
negativos para anti-CCP, 1 (2,2%) indivíduo soroconverteu para positivo. E
dentre os 27 negativos para FR, 12 (44,4%) pacientes soroconverteram para
positivos. O presente estudo reforça a necessidade de um monitoramento
reumatológico prolongado para a identificação precoce de possíveis transições
para doenças autoimunes crônicas estabelecidas.