CONHECIMENTO DE ENFERMEIROS SOBRE ASSISTÊNCIA PRÉ-NATALAOS
HOMENS TRANS E TRANSMASCULINOS: ESTUDO QUASE EXPERIMENTAL
Enfermagem. Tecnologia Educacional. Saúde do Homem. Gravidez. Minorias Sexuais e de Gênero. Cuidado Pré-Natal. Educação em Saúde. Educação Permanente.
Homens trans e pessoas transmasculinas gestantes constituem um grupo em situação de
vulnerabilidade individual, social e programática no contexto da assistência pré-natal ofertada pela
Atenção Primária à Saúde. Tal cenário decorre de políticas públicas historicamente estruturadas sob uma
lógica cisheteronormativa. Diante disso, torna-se necessário desenvolver estratégias educativas que
promovam o acolhimento, o respeito à diversidade de gênero e a qualificação dos profissionais de saúde
que atuam diretamente no acompanhamento pré-natal. O presente estudo teve como objetivo avaliar o
conhecimento de enfermeiros da Atenção Primária à Saúde sobre a assistência pré-natal a homens trans e
pessoas transmasculinas antes e após a aplicação de uma intervenção educativa, operacionalizada por
meio de uma cartilha educacional. Como objetivos específicos, buscou-se construir e validar a cartilha
educacional, avaliar sua aparência e semântica junto a especialistas e ao público-alvo, bem como
mensurar o impacto da intervenção no conhecimento dos profissionais participantes. Trata-se de um
estudo multimétodo, com delineamento metodológico e quase-experimental. O desenvolvimento da
cartilha foi fundamentado em evidências científicas e materiais oficiais do Ministério da Saúde. A etapa
de validação contou com a participação de 15 especialistas, selecionados segundo os critérios de Jasper,
enquanto o processo de avaliação semântica envolveu 14 profissionais de enfermagem da Atenção
Primária à Saúde. Para análise foram calculados o Índice de Validade de Aparência (IVA), o Índice de
Validade de Conteúdo (IVC) e o Coeficiente de Validade de Conteúdo (CVC). Os resultados evidenciaram
que, após a validação de conteúdo e avaliação semântica, a cartilha foi aprimorada, e as principais
modificações incluíram a inserção dos temas “gravidez não planejada”, “abortamento” e “adoção”, além
da inclusão de um caso clínico ilustrativo, com o intuito de ampliar a aplicabilidade prática do material.
Observou-se elevado nível de concordância entre os avaliadores. Dos 12 itens analisados, sete alcançaram
IVA máximo (1,0). Em relação ao IVC, 10 dos 18 itens atingiram valor máximo (1,0). Quanto ao CVC,
todos os itens apresentaram valores superiores a 0,90, indicando excelente validade do material. Para o
estudo quase-experimental, a amostra foi constituída por 84 profissionais. Para avaliação do desfecho, foi
elaborado um instrumento específico, aplicado em dois momentos: pré-teste (T0) e pós-teste imediato
(T1). Os dados foram analisados por meio de estatística descritiva, teste t de Student pareado e teste de
McNemar, adotando-se nível de significância de 5%. Observou-se melhora estatisticamente significativa
nos escores de conhecimento dos enfermeiros após a intervenção educativa (T1), com aumento da média
de 19,70 (±2,44) no pré-teste para 24,32 (±1,61) no pós-teste (p<0,001). Conclui-se que a cartilha
educacional foi validada por especialistas e público-alvo, apresentando evidência de validade clínica, com
aumento do conhecimento dos enfermeiros após a intervenção, configurando-se como uma tecnologia
viável, eficaz e bem aceita para qualificar a prática no cuidado pré-natal a homens trans e pessoas
transmasculinas. Sua utilização, associada a ações permanentes de educação em saúde, apresenta
potencial para contribuir com a qualificação da assistência, promovendo um Sistema Único de Saúde mais
inclusivo, equitativo e livre de práticas discriminatórias, em consonância com os princípios da Rede Alyne
e da Política Nacional de Saúde Integral LGBT+.