Mudanças Climáticas e Gastos Out-of-Pocket com
Medicamentos no Brasil: Evidências e Implicações
Econômicas
Choque Climático. Gastos Catastróficos. Medicamentos. Investi-
mentos Defensivos. Pobreza. Brasil.
Este trabalho tem por objetivo estimar o impacto das mudanças climáticas sobre os
gastos diretos (out-of-pocket) das famílias brasileiras com medicamentos. Utilizando
microdados de três edições da Pesquisa de Orçamentos Familiares (2002/03, 2008/09
e 2017/18) integrados a dados meteorológicos de alta resolução, estimamos um
modelo de efeitos fixos para identificar o efeito causal de variações de temperatura
e episódios de seca sobre a participação de medicamentos no orçamento domiciliar.
Os resultados indicam que a exposição climática gera realocações orçamentárias
significativas, embora heterogêneas. Para medicamentos cardiovasculares, cada dia
adicional entre 24°C e 27°C eleva a partipação dessa despesa no orçamento das
famílias em 0,006 p.p., enquanto a seca moderada aumenta essa participação em
cerca de 12,95%. A análise de heterogeneidade revela que o ônus é severamente
maior entre os domicílios do primeiro quintil de renda (mais pobres), onde choques
de seca moderada elevam a participação de antiasmáticos no orçamento em 77% e
de cardiovasculares em 44%. Observou-se ainda que extremos de frio (<10°C) e seca
severa levam as famílias mais pobres a não conseguirem adquirir medicamentos,
sugerindo restrições de liquidez e adiamento de tratamentos essenciais. Os resultados
evidenciam que a vulnerabilidade socioeconômica amplifica os custos econômicos
do clima, expondo lacunas na rede de proteção à saúde no Brasil.