GEOGRAFIAS DA PERFORMANCE E RESISTÊNCIA QUEER: TERRITORIALIDADES E PRÁTICAS ESPACIAIS DAS DRAG QUEENS NO BAIRRO DA BOA VISTA, RECIFE - PE.
Geografia do Gênero e da Sexualidade; Drag Queen; Queer; Recife; Espaços de Resistência.
Esta tese investiga como as drag queens da Região Metropolitana do Recife (RMR) produzem territórios queer por meio da articulação entre montação, deslocamento urbano e ocupação de espaços de sociabilidade, gerando temporalidades dissidentes que desafiam a ordem heteronormativa urbana. Inscrita na Geografia do Gênero e da Sexualidade (GGS), a pesquisa adota abordagem qualitativa, exploratória e empírica, mobilizando entrevistas semiestruturadas com dez drag queens da cena cultural recifense e quatro gestores de estabelecimentos LGBTQIAPN+ do bairro da Boa Vista, além de questionários, observação participante e cartografia afetiva. O referencial teórico articula a performatividade de gênero de Butler (2003), a produção do espaço de Lefebvre (2006), as temporalidades queer de Halberstam (2005), a geometria do poder de Massey (2008), a economia urbana de Santos (2008) e a multiterritorialidade de Haesbaert (2004) às contribuições pioneiras da GGS brasileira, sobretudo de Silva e Ornat. A interseccionalidade entre raça, classe e gênero orienta a leitura das experiências situadas dos sujeitos pesquisados, majoritariamente negros e periféricos. A análise empírica organiza-se em torno de três temporalidades espaciais que estruturam a cartografia queer recifense: a semiclandestinidade e os primeiros territórios (1940–1989), marcados pela apropriação furtiva de cinemas e pela emergência das primeiras boates sob a repressão da Ditadura Militar; a consolidação do polo da Boa Vista (1990– 2009), quando o eixo da Rua das Ninfas e da Avenida Manoel Borba se territorializa como centralidade LGBTQIAPN+ de escala metropolitana e regional; e o período de dispersão, itinerância e pandemia (2010–atual), marcado pela alta rotatividade dos estabelecimentos, pela proliferação de festas itinerantes e pela crise sanitária da COVID-19, que acelerou a desterritorialização e impulsionou estratégias nômades de resistência. A tese demonstra que o corpo da drag queen constitui a escala geográfica fundamental desse processo: o ritual da montação transforma o espaço doméstico em território político; o deslocamento pela cidade heteronormativa é atravessado por cálculo de risco, redes de afeto e táticas coletivas de sobrevivência; e a ocupação dos espaços de sociabilidade — bares, boates, saunas e festas itinerantes — produz territorialidades queer à margem dos mapas oficiais. As redes de afeto, compreendidas como trabalho reprodutivo invisibilizado, emergem como infraestrutura política indispensável à existência drag no espaço urbano. Os resultados evidenciam que parte significativa das entrevistadas relatou ter sofrido, ao longo da trajetória artística, alguma forma de violência — física, moral ou verbal —, reafirmando a precariedade e o risco que atravessam a produção desses territórios. Constata-se ainda que nem todos os espaços de sociabilidade oferecem estrutura adequada ao exercício da arte drag, como camarins e áreas de apoio, e que a remuneração recebida é, em grande medida, insuficiente e desproporcional ao valor simbólico e ao investimento financeiro exigido pela atividade, não sendo possível, para a maioria, viver exclusivamente da arte drag. Em contrapartida, a pesquisa revela que os gestores dos estabelecimentos comerciais reconhecem a relevância da arte drag para seus negócios, compreendendo esses espaços simultaneamente como território de refúgio e acolhimento para a comunidade LGBTQIAPN+ e como diferencial competitivo capaz de agregar valor simbólico e econômico aos seus estabelecimentos.