A TERRITORIALIZAÇÃO DOS COMPLEXOS EÓLICOS NO AGRESTE PERNAMBUCANO: COMPARTIMENTAÇÃO E FRAGMENTAÇÃO TERRITORIAL
globalização; transição energética; energia eólica; território usado.
O técnico-científico-informacional é a expressão material da globalização, momento em que todos os objetos e ações são criados, justificados e legitimados por um discurso. A energia eólica tem sido legitimada pelo discurso da energia limpa e renovável e, por isso, é considerada uma alternativa eficaz para a mitigação da crise ambiental e climática global. Neste contexto, no Brasil, a energia eólica tornou-se um dos principais vetores para o país desenvolver a transição energética. Entretanto, o discurso da transição energética escamoteia as intencionalidades subjacentes à expansão da energia eólica e ensombrece as perversidades dos eventos. A produção de energia eólica tem como fundamento a compartimentação técnica, funcional e econômica do território realizada por agentes hegemônicos alheios ao lugar, que visam primordialmente ampliar a acumulação de capital. Ao mesmo tempo, a produção de energia eólica tem se revelado como uma fábrica de perversidades na escala local. Os espaços rurais do Agreste Pernambucano se inserem nesse contexto, de vez que, a partir do segundo decênio do século XXI, ocorrera a territorialização dos complexos eólicos Serra das Vacas, Ventos de Santa Brígida e Ventos de São Clemente, ocupando uma área de aproximadamente 14 mil hectares, abrangendo os municípios de Caetés, Capoeiras, Paranatama, Pedra, Saloá e Venturosa. Diante do exposto, esta pesquisa teve como enfoque central a análise da territorialização dos complexos eólicos no Agreste Pernambucano e os processos de compartimentação e fragmentação territorial dos espaços rurais desencadeados por esses eventos. Para alcançar esse objetivo, foram desenvolvidas as seguintes modalidades de pesquisa: bibliográfica, documental e estudo de campo. A pesquisa de campo contou com a observação direta do fenômeno, com a utilização de registro fotográfico, aparelho de Global Positioning System (GPS) e diário de bordo. Soma-se a isso a participação como ouvinte em escutas e a aplicação de sessenta (60) formulários semiestruturados junto aos rurícolas. Essas técnicas de pesquisa serviram para a obtenção de dados objetivos e subjetivos da realidade. Com base nos dados coletados ao longo deste estudo, constatou-se que os complexos eólicos criaram compartimentos nos espaços rurais da região, mas esse processo ocorrera acompanhado da fragmentação do território, engendrada pelas implicações socioterritoriais da produção de energia eólica. A fragmentação do território reflete a face perversa da energia eólica, que perturba, desorganiza e agudiza as condições de vida dos rurícolas e se sobrepõe aos usos tradicionais do território, desarticulando as práticas locais, enfraquecendo a soberania territorial e intensificando as desigualdades socioespaciais.