AVALIAÇÃO DA QUALIDADE DO SONO E ASPECTOS POLISSONOGRÁFICOS COM MONTAGEM NEUROLÓGICA DE CRIANÇAS COM SÍNDROME DA ZIKA CONGÊNITA.
Síndrome da Zika congênita; microcefalia; sono; polissonografia; estágios do sono; qualidade de sono; paralisia cerebral.
Objetivos: Descrever a qualidade, arquitetura, características dos grafoelementos,
eletroencefalográficas e respiratórias do sono de crianças portadoras de Síndrome da Zika
congênita (SZC) com microcefalia e comparar os achados em relação à classificação
neuroclínica e neurorradiológica. Métodos: Foram incluídas 65 crianças diagnosticadas com
SCZ, nascidas entre 2015 e 2017, que realizaram polissonografia noturna (PSG) com
montagem neurológica ampliada e capnografia. Aplicou-se o Breve Questionário de Sono
Infantil (BISQ), para avaliação de qualidade de sono, utilizando os critérios para definição de
má qualidade: a criança acorda > 3 vezes noite e/ou período de vigília noturna é > 1 hora e/ou
tempo total de sono <9 horas e dados objetivos da PSG, que se baseou na eficiência do sono
(ES), na latência para início do sono (LS) e na vigília após o início do sono (WASO). As
crianças foram classificadas com base em exames neuroclínicos (corticoespinhais e
neuromusculares) e neurorradiológicos (supre e infratentoriais). Resultados: A qualidade do
sono, avaliada pelo BISQ, foi classificada como ruim em 27/65 (41,5%) das crianças, 30/65
(46,2%) através da análise por PSG e 46/65 (70,8%) quando os dois parâmetros foram
considerados. Apneia do sono foi detectada em 23 crianças (35,4%), sendo apneia central a
mais prevalente. Dessaturação foi observada em 26 (40%) e ronco em 13 (20%) crianças.
Movimentos periódicos das pernas estavam presentes em 48 crianças e níveis baixos de
ferritina foram observados em 84,6%. A apneia do sono e a saturação de oxihemoglobina não
apresentaram associação com a classificação neuroclínica ou neurorradiológica. No entanto,
embora dentro dos limites normais, as médias de PetCO2 foram significativamente mais
baixas nas crianças com alterações corticoespinhais e neuromusculares em comparação com
aquelas com alterações exclusivamente corticoespinhais. Em relação à estrutura de sono, as
crianças com alterações corticoespinhais associadas a alterações neuromusculares
apresentaram latência de início de sono mais longa e maior percentual de sono indeterminado
em comparação com as crianças com alterações corticoespinhais isoladas, assim como uma
diferença com valor de p limítrofe no índice de despertar nas crianças com alterações
associadas. Quanto à classificação neurorradiológica, crianças com achados exclusivamente
supratentoriais apresentavam uma latência de início de sono mais longa do que as do grupo
com anomalias supra e infratentoriais. A atividade epileptiforme (AE) foi frequente durante a
vigília, o sono N e o sono REM, com convulsões em 19 crianças (29,2%) na noite do exame
de polissonografia. Foram pouco identificados fusos do sono, complexos K, onda aguda do
vértice e ondas delta do sono, sendo necessária a classificação de sono em R, N e
indeterminado. Na vigília, houve ausência de ritmo de base posterior em 73,4%, e AE esteve
presente em 79,6%. No sono N, 98,5% apresentaram AE, tipo surto-supressão em 63,1% e
ausência de ondas de sono em 78,5%. No sono R, 53,8% apresentaram traçado contínuo,
69,2% apresentaram movimento rápido dos olhos e 93,8% apresentaram AE. As crianças com
achados exclusivamente supratentoriais apresentavam uma latência de início de sono mais
longa do que as do grupo com anomalias supra e infratentoriais. Conclusões: Os resultados
deste estudo lançam luz sobre os complexos padrões respiratórios, estruturais e
eletroencefalográficos do sono e as características do EEG em crianças com SZC, destacando
os desafios do estadiamento do sono e a prevalência de apneia central e atividade
epileptiforme nesta população.