PROFESSORAS NEGRAS DE MATEMÁTICA: TENSÕES E POSSIBILIDADES ENTRE RAÇA, GÊNERO E PROFISSÃO
professoras negras de matemática; Feminismo Negro;
interseccionalidade; racismo estrutural.
Em minha pesquisa, investigo quais atividades docentes limitam e/ou fortalecem o exercício
profissional de professoras negras de matemática em uma escola pública de Ensino
Fundamental em tempo integral, localizada na comunidade quilombola Pé de Serra dos
Mendes, no município de Agrestina/PE. Parto do reconhecimento de que a docência de
matemática é um campo historicamente marcado pela exclusão de mulheres negras, sendo
socialmente atribuído ao homem branco o lugar de detentor legítimo desse saber. Como
referencial teórico, utilizei o Feminismo Negro (Collins, 2019; Gonzalez, 2020; Carneiro,
2003; Davis, 2016; Akotirene, 2019), e os estudos de gênero dentro de uma perspectiva pós-
estruturalista (Butler, 2003; Louro, 2014; Piscitelli, 2019), fazendo uso da
interseccionalidade (Crenshaw, 2004; Collins; Bilge, 2021) como ferramenta analítica.
Desenvolvi uma pesquisa de natureza qualitativa, adotando o estudo de caso (Yin, 2001)
como metodologia de pesquisa e a entrevista semiestruturada como técnica de produção de
dados, analisadas por meio da Análise de Conteúdo (Bardin, 2016). As sujeitas da pesquisa
são duas professoras negras de matemática, a Professora 1, autodeclarada preta, com 25 anos,
e a Professora 2, autodeclarada parda, com 31 anos, ambas licenciadas pela Universidade
Federal de Pernambuco. Organizei minha análise em dois momentos: o primeiro dedicado
ao mapeamento das trajetórias formativas e profissionais, identificando como a identidade
étnico-racial dessas professoras se intersecta com a escolha pela matemática; o segundo
voltado à identificação de situações de silenciamento, invisibilidade e discriminação no
cotidiano escolar. Os resultados das análises, indicam que ambas as professoras vivenciam
sistematicamente o racismo estrutural e institucional, a desvalorização de seu trabalho
docente, o silenciamento de suas demandas pela gestão escolar e a solidão estrutural
decorrente da ausência de redes de suporte. Em contrapartida, identifico que essas
professoras constroem, a partir de suas consciências raciais, estratégias de resistência que
transformam a sala de aula em espaço de representação e luta. Por fim, término minha analise
concluindo que a presença da professora negra na docência da matemática não é apenas um
exercício profissional, mas constitui, sobretudo, um ato político de resistência à matriz de
dominação que historicamente a silencia e a excluiu desse espaço.