NÃO HÁ CRIME SEM CASTIGO: Explorando os conceitos de Justiça de Hegel e Dostoiévski no ensino de filosofia
Justiça. Hegel. Dostoiévski. Ensino de filosofia. Hermenêutica.
Esta dissertação investiga o conceito de justiça nas obras Filosofia do Direito (1820/1), de Georg Wilhelm Friedrich Hegel (1770-1831), e Crime e Castigo (1866), de Fiódor Dostoiévski (1821-1881), tomando essa articulação como fundamento para uma proposta didática voltada ao ensino de filosofia no Ensino Médio. Parte-se do problema da dificuldade de tornar acessíveis, sem empobrecimento conceitual, temas filosóficos densos como liberdade, crime, culpa, pena, vingança, reconhecimento e reconciliação, especialmente quando abordados no contexto da educação básica. O estudo tem como objetivo analisar de que modo a aproximação entre a elaboração conceitual hegeliana e a dramatização literária dostoievskiana do problema da justiça pode favorecer a formação filosófica dos estudantes. Metodologicamente, a pesquisa adota uma abordagem hermenêutica e qualitativa, orientada pela hermenêutica filosófica de Hans-Georg Gadamer, articulando leitura interpretativa das obras, análise conceitual e aplicação pedagógica por meio de uma intervenção realizada em formato de clube de leitura filosófica com estudantes do Ensino Médio. A investigação evidencia que, em Hegel, a justiça se vincula à efetivação da liberdade no direito, na eticidade, no reconhecimento e no Estado, enquanto, em Dostoiévski, ela emerge de forma dramática na experiência da autojustiça, do crime, da culpa e da possibilidade de redenção. Os resultados da intervenção, registrados também como “cartas filosóficas” enquanto produto pedagógico, indicam que o diálogo entre filosofia e literatura amplia a compreensão discente sobre a justiça, deslocando percepções imediatas associadas à vingança ou ao moralismo simplificador e favorecendo uma leitura mais complexa da relação entre particularidade e universalidade, lei e consciência, castigo e reconciliação. Compreende-se, portanto, que a articulação entre Hegel e Dostoiévski constitui um caminho pedagogicamente fecundo para o ensino de filosofia, na medida em que une rigor conceitual e densidade existencial, tornando a reflexão filosófica mais inteligível, significativa e formativa no espaço escolar.