De belezas brasileiras para a beleza brasileira: Relações raciais e regulação social da beleza nos concursos Miss Brasil
Beleza; Mulheres Negras; políticas da performance; Concursos de beleza Miss .
Esta tese apresenta uma contribuição à antropologia dos concursos de beleza Miss no Brasil,
focado em metodologias da antropologia da performance e nas relações raciais produzidas nesse
fenômeno. Os concursos Miss formam uma ampla rede internacional estruturada como uma
pirâmide invertida, iniciando com as eliminatórias municipais, seguidas pelas etapas estaduais,
nacionais e, por fim, internacionais. O objetivo da pesquisa é analisar as dinâmicas locais,
nacionais e globais da "regulação social da beleza" (Laurent, 2013) no Brasil, por meio de uma
etnografia das performances discursivas e das corporalidades elaboradas para a conquista do
título da mais bela. Os concursos beneficiam de uma divulgação considerável facilitada pelo
acesso às mídias e tecnologias de massa gerando cada vez mais visibilidade e comentários
participando à essa regulação. Financiados por uma rede de fomento e lobbies internacionais,
esses eventos participam à construção de uma feminilidade que se alinha a padrões estéticos de
beleza rigorosos, adaptando-se à escala locais, nacionais ou internacionais segundo o contexto
de suas produções. A partir de uma pesquisa de campo em Pernambuco, Bahia e São Paulo em
diversas etapas de concursos Miss Be Emotion, e de uma análise de arquivos históricos e
iconográficos desde a primeira edição brasileira desse fenômeno global, evidencia-se um
modelo hegemônico de corpos e dramatizações sociais da feminilidade que tenta ignorar as
estruturas raciais que persiste, no entanto, a alimentar à escala nacional e global. Em um
primeiro momento, busco entender como a beleza brasileira se conformou no país, notando a
presença ínfima de corpos negros eleitos para a representar. Num segundo momento, analiso as
tensões entre as performances da beleza brasileira e as manifestações de afirmação racial e
cultural das misses negras, tentando identificar o “capital afetivo” e as “racionalidades” no
coração dos mecanismos da “biopolítica da beleza”, acelerada pela democratização global dos
procedimentos estéticos. Num terceiro momento, tento entender como o afroempreendedorismo
se insere nos circuitos da beleza negra, e como essa participa de uma regulação social da beleza
onde beleza não se confunde mais com biopolítica.