O lugar da criança Pajé frente os processos educativos dentro e fora da doutrina Espiritualista do amanhecer na cidade do Recife
Antropologia da infância; Educação; Ritual; Racialidade; Vale do Amanhecer
Esta tese analisa os processos educativos vivenciados por crianças pajés no interior da doutrina espiritualista do
Templo Aluanto do Amanhecer, localizado na cidade do Recife em um bairro periférico conhecido como Comunidade
Caxangá. Nesta pesquisa, as crianças são definidas a partir da categoria espiritual do Vale do Amanhecer, que compreende
a infância como o período entre 0 e 14 anos de idade. Ancorada na antropologia da infância, na antropologia da educação
e nos estudos sobre religiosidades brasileiras, a pesquisa reconhece as crianças como sujeitos sociais, produtores de
conhecimento e agentes ativos nos contextos rituais que habitam. Metodologicamente, a tese fundamenta-se em uma
etnografia de longa duração, construída por meio da convivência cotidiana com as crianças, observação participante,
registros em diário de campo, produção de desenhos, narrativas e práticas criativas desenvolvidas em coautoria com os
interlocutores infantis. A etnografia é conduzida a partir de uma perspectiva relacional e intergeracional, na qual as
experiências das crianças não são analisadas de forma isolada, mas compreendidas em articulação com os adultos
praticantes da doutrina. A pesquisa também problematiza a posição da pesquisadora em campo, marcada por uma dupla
inserção enquanto integrante do Vale do Amanhecer e antropóloga, assumindo a reflexividade como eixo constitutivo do
método. Os resultados da pesquisa demonstram que educação, ritual e racialidade se articulam de maneira indissociável
na constituição das experiências das crianças pajés, atravessando práticas cotidianas, aprendizagens rituais, relações
familiares, vivências escolares e processos de enfrentamento ao racismo religioso. A etnografia evidencia que o ritual dos
Pequenos Pajés não se restringe à reprodução da tradição religiosa, configurando-se como um dispositivo pedagógico no
qual as crianças aprendem, ensinam, negociam pertencimentos e produzem sentidos sobre si e sobre o mundo. Revela-se,
assim, que os processos educativos no Vale do Amanhecer extrapolam os limites institucionais da escola, constituindo
uma pedagogia ritual própria, atravessada por marcadores geracionais, raciais e religiosos. Ao evidenciar as experiências
das crianças pajés em seus contextos relacionais e intergeracionais, esta tese contribui para os debates contemporâneos
sobre infância, educação e religiosidade, reafirmando a importância de etnografias eticamente comprometidas com a
escuta, o cuidado, a reflexividade e a devolução ao campo.