Caçar para Cuidar: O Mar Onde a Morte Também Protege
peixe-leão; cuidado; multiespécies; Antropoceno; manejo ambiental; Pernambuco; Fernando
de Noronha
A chegada do peixe-leão (Pterois volitans) ao litoral de Pernambuco e ao arquipélago de Fernando de
Noronha, a partir de 2020, instaurou não apenas um problema ecológico, mas um dilema ético, político e
sensorial: como cuidar de um ambiente quando cuidar exige matar? Esta tese investiga o manejo do peixe-leão
como um acontecimento multiespécie, no qual práticas técnicas, afetos, protocolos institucionais e dilemas
morais se articulam na produção de formas situadas de cuidado. A partir de uma abordagem etnográfica,
acompanhando reuniões interinstitucionais, pescadores, mergulhadores, pesquisadores e equipes de manejo,
discuto como a eliminação do peixe-leão, embora legitimada pela conservação ambiental, produz tensões e
hesitações entre aqueles que realizam essa tarefa. Eliminar o bioinvasor marinho é uma prática atravessada por
afetos ambíguos, que revelam um cuidado que não é romântico, mas conflitivo. Ao analisar esses encontros,
argumento que o manejo do peixe-leão não pode ser entendido apenas como ação biológica de erradicação, mas
como campo ético-político no qual humanos e peixes se tornam co-participantes na produção de mundos. A tese
contribui para ampliar o debate sobre conservação ambiental no Antropoceno, destacando como práticas de
“matar para cuidar” reconfiguram a ideia de proteção e convocam novas formas de pensar a vida, a morte e o
cuidado em ambientes costeiros e recifais.