A CONTAMINAÇÃO SIMBÓLICA DA CASA PELO MUSEAL
Casa; Museu; Contaminação, Parentesco; Memória
Neste trabalho, são conciliados conceitos caros aos campos disciplinares da antropologia e damuseologia, para percorrer temas como
parentesco, memória e processos de musealização, articulados com as materialidades que configuram os espaços domésticos,
constituídas tanto pelas casas, quanto pelos objetos que também ali habitam, bem como pelos valores simbólicos que mobilizam. O
cruzamento epistêmico proposto é mobilizado para refletir esses campos a partir de relatos colhidos de cinco interlocutores que
compõem o grupo de amostragem trabalhado nesta pesquisa, que tem como pano de fundo o ambiente da casa, seus objetos, os
afetos, as biografias desses interlocutores e as relações e agenciamentos que podem ser articulados com algumas das práticas museais
mais conhecidas, como é o caso das curadorias e exposições. Tais práticas, por sua vez, oferecem-nos outros olhares sobre um
sistema de casas que cria e imagina um modo de organização peculiar para esses espaços domésticos, criando narrativas próprias.
Nessa direção, as discussões que emergem na pesquisa se concentram no cruzamento de práticas e simbologias identificadas nas
espacialidades do museu e da casa, evidenciando as especificidades de suas materialidades, dos valores simbólicos que as atravessam
e das relações sociais e de poder que ambas engendram. Assim, o espaço da casa, reorganizado e permeado por atos ritualísticos,
trazidos dos processos de musealização para o âmbito da vida cotidiana, entrelaça-se ao sistema simbólico do museal, ou seja,
tornando ambígua ou híbrida a categoria de casa e de museu; conferindo uma viscosidade ou indefinição de fronteiras entre as
mesmas, objeto de interesse desta pesquisa. Propõe-se então pensar a casa como uma possibilidade de fronteira com os espaços
simbólicos do museal, incorporando as contribuições de Mary Douglas (1921-2007), compreendendo os processos de musealização
como rituais simbólicos, ao identificar a manifestação do museal no ambiente doméstico a partir do acionamento dos conceitos de
ambivalência e hibridismo, decorrentes de um processo de contaminação da casa pelo museal. Nesse sentido, é a partir da ideia de
que o espaço da casa é habitado por sujeitos, afetos, coisas, comportamentos prescritos socialmente, memórias individuais e
coletivas, que
se discorre sobre a agência de determinados indivíduos, conferindo musealidade a esses espaços e configurando o que se está
nomeando como museália doméstica, ou seja, objetos inseridos nessas casas, que adquirem status de objeto musealizado.