A "Fratura Animal" e a Crítica Antiespecista: Raça e Espécie na Experiência da Dhuzati Antiespecista
Fratura Animal; Antiespecismo Racializado; Dhuzati Antiespecista; Antihumanismo; Afrocentricidade
A dissertação investiga a articulação política e epistemológica da coletiva Dhuzati Antiespecista, criada pela pesquisadora e atuante na
intersecção entre lutas por direitos animais, antirracismo e anticolonialidade. O problema central está na maneira como o veganismo tem sido
formulado a partir de parâmetros eurocêntricos que se pretendem universais e, com isso, tornam o movimento pouco sensível às dinâmicas de raça e
classe, frequentemente reiterando hierarquias coloniais. Considerando que a Dhuzati também é um espaço de atuação política e de geração de renda
da pesquisadora, o trabalho adota uma etnografia situada e engajada, na qual a trajetória da coletiva é analisada em continuidade com a trajetória da
própria autora. O referencial teórico mobiliza contribuições de Malcolm Ferdinand, com a noção de dupla fratura da modernidade, e de Aph e Syl
Ko, que interpretam a categoria animal como âncora da supremacia branca, sustentando a elaboração do conceito de Fratura Animal. Essa categoria
analítica amplia a compreensão das conexões entre exploração animal, racismo e colonialidade ao demonstrar como a separação rígida entre
humano e animal opera como marcador ontológico produtor de hierarquias sociais, raciais e ecológicas. A análise etnográfica das práticas da
Dhuzati, na organização de mobilizações e no trabalho de cuidado animais, evidencia que a libertação animal não pode ser pensada dissociada da
condição racial. Ao mobilizar a afrocentricidade como perspectiva epistêmica e metodológica, a coletiva recusa a busca por valor ancorada na
inclusão na humanidade tal como universalizada pela branquitude ocidental e propõe uma crítica simultânea ao veganismo hegemônico e a certas
limitações de agendas antirracistas, com efeitos para as epistemologias das resistências ao racismo e à colonialidade. O trabalho contribui para a
Antropologia Negra e para os estudos decoloniais, oferecendo um referencial teórico e metodológico a partir de uma epistemologia negra e de
crítica colonial.