Programando a gestão pública: uma etnografia das práticas em uma central de dados públicos em Recife, Pernambuco
dados; gestão pública; evidências; processo técnico; antropologia dos dados.
Com a ampliação das capacidades computacionais de processamento de dados e a progressiva digitalização dos serviços públicos, intensificam-se os discursos sobre decisões “orientadas por dados” e “baseadas em evidências” no âmbito da gestão pública. Nesta pesquisa, ocupo-me das práticas e técnicas que antecedem e configuram tais decisões. A partir da realização de um trabalho de campo em uma importante central de dados do governo municipal de Recife, Pernambuco, descrevo etnograficamente uma gama de transformações, mediações e agenciamentos mais-que-humanos por meio dos quais extensos conjuntos de registros fragmentados (os chamados “dados brutos”) são calculados e combinados para produzir “informações” e “evidências” para os gestores. Como ferramenta de descrição, lanço mão do método das “cadeias operatórias” de modo a enfatizar um encadeamento ao mesmo tempo técnico, estético e político através do qual os “dados” são colocados em ação e, por sua vez, instituem para a gestão pública novas praticalidades e materialidades. A problemática, assim, alia debates mais recentes da “antropologia dos dados” com uma antropologia das ciências e das técnicas, de modo a investigar um processo técnico que está (re)modelando as possibilidades de governança aos moldes do bancos de dados, um empreendimento cujos efeitos recursivos e teleológicos não devem ser ignorados. Ao final, abro um espaço de reflexão para deslocar a pergunta de “como os dados são colocados em ação na gestão pública?” para “que gestão pública os dados colocam em ação?”.