DA CENTRALIDADE AO REGIME DE LATÊNCIA: O DESENCARNE, A PESSOA E A MORAL NA
PRÁTICA ESPÍRITA
Antropologia da Morte; Espiritismo; Moralidade; Noção de Pessoa; Representação de pessoa
Esta dissertação analisa como é vivenciado no Centro Espírita Bezerra de Menezes (CEBM) o ciclo de
encarnações na cosmologia espírita kardecista, investigando como as categorias de desencarne, pessoa e moralidade
estruturam as práticas da instituição. O objetivo central é compreender de que forma esse ciclo, alicerçado em um
modelo específico de pessoa e em imperativos morais de evolução, implica e organiza o cotidiano dos adeptos. Para tal,
realizou-se uma etnografia no CEBM, no Recife (PE), combinando observação participante, diário de campo e
entrevistas com frequentadores e trabalhadores. Identificou-se que a relação dos adeptos com o ciclo de encarnações –
especificamente com o desencarne – estabelece-se por meio de duas posturas distintas: uma de centralidade, mobilizada
em discussões diretas ou na iminência da morte; e outra de regime de latência, na qual o ciclo atua como um horizonte
silencioso que fundamenta as ações e atribui sentido às práticas, sem necessariamente ocupar o foco narrativo. Assim,
contrariando teorias clássicas sobre a morte no Ocidente e sua perspectiva da negação, a cosmologia espírita no contexto
estudado estabelece o desencarne não como tabu, mas como eixo estruturante que promove a continuidade do “eu” e
sustenta uma intensa relação entre encarnados e desencarnados.