"Minha filha tinha uma vida": itinerários de abandono e a produção da morte materna
mortalidade materna; itinerários de abandono; justiça reprodutiva; saúde
A mortalidade materna no Brasil permanece marcada por mortes “evitáveis” e por desigualdades raciais, territoriais e econômicas,
agravadas pela pandemia de Covid-19. Esta tese investiga como essas mortes são identificadas, documentadas, narradas e classificadas pela
vigilância do óbito materno em Recife, Pernambuco. A partir de uma etnografia realizada junto ao Comitê Estadual de Estudos da Mortalidade
Materna de Pernambuco, ao Comitê Municipal de Mortalidade Materna do Recife e a um grupo de controle social, acompanhei reuniões técnicas,
atividades formativas e a circulação de prontuários, fichas, relatórios e narrativas produzidas em visitas domiciliares, além de entrevistar
profissionais e integrantes dos comitês. A pesquisa mostra como a morte materna é produzida como caso por meio de um “caminho inverso do
óbito”, no qual as profissionais partem da morte e retornam ao pré-natal, ao parto, ao puerpério e às condições cotidianas de vida. Esse rito
institucional reúne documentos fragmentados, testemunhos e interpretações para elaborar uma versão possível da morte, submetida a julgamentos
sobre causa, conduta, evitabilidade e responsabilidade. Denomino itinerários de abandono o acúmulo de recusas, demoras, encaminhamentos sem
garantia de acesso, falhas de comunicação, registros incompletos e reprodução de estereótipos que atravessam essas trajetórias, assentadas em uma
atmosfera de antinegritude cujos efeitos persistem após a morte. Apoio-me principalmente no campo da justiça reprodutiva para analisar a
mortalidade de mulheres em idade fértil. Argumento que a vigilância ocupa uma posição ambivalente: torna visíveis desigualdades e falhas
assistenciais, mas também pode traduzir processos estruturais em comportamentos individuais. A tese mostra ainda como instâncias estatais
classificam e respondem às mortes maternas e como profissionais, movimentos feministas, representantes do controle social e familiares disputam
as narrativas produzidas sobre essas vidas interrompidas.