SUSTENTAR O POSSÍVEL: um olhar antropológico sobre o Trabalho Técnico Social na política urbana do Recife-PE
Trabalho Técnico Social; Cuidado; Estado; Política Urbana; Gênero.
RESUMO
O Trabalho Técnico Social (TTS) ocupa posição ambivalente nas políticas urbanas brasileiras: previsto como componente indispensável dos programas de urbanização, seu exercício é atravessado por baixa autonomia decisória, escassez de recursos e reconhecimento desigual. A tese investiga como técnicos e técnicas sociais
administram a precariedade ao mobilizar práticas de cuidado e em que condições esse cuidado constitui uma dimensão pública da ação estatal. A pesquisa acompanha o TTS em programas de urbanização no Recife a partir da inserção profissional da autora, posição implicada que sustenta uma etnografia de perto e de dentro (Magnani, 2002), articulando a sistematização retrospectiva da experiência, cinco entrevistas em profundidade e a análise das normativas da prática. O enquadramento mobiliza os burocratas de nível de rua (Lipsky, 2019), a precariedade (Butler, 2019), a ética do cuidado (Tronto, 2007; 2013) e a antropologia da vida ordinária (Das, 2020), em diálogo com categorias nativas como perde-perde, devolver no doce e chão em movimento. A análise sugere que esse trabalho produz uma legibilidade recíproca: ao tornar as decisões estatais inteligíveis para as famílias, torna o Estado uma instância reconhecível, à qual dirigir demandas. Produzir legibilidade, contudo, não assegura a possibilidade de alterar decisões em curso. Os mesmos gestos podem fortalecer o reconhecimento dos moradores como sujeitos de direito ou favorecer sua pacificação, conforme as condições institucionais do encontro, atravessadas pela feminização do trabalho. A tese sustenta que o cuidado adquire caráter público quando encontra condições para ser exercido, e não apenas pela disposição de quem o realiza, e propõe compreender o Estado como efeito continuamente produzido em um chão em movimento.