“Como se fosse da família”: branquitude e colonialidade do trabalho doméstico no Brasil
contemporâneo.
Trabalho doméstico; Branquitude; Colonialidade; Interseccionalidade; Estado e Justiça.
Esta dissertação investiga as reatualizações contemporâneas da colonialidade do trabalho doméstico
no Brasil, analisando como a hegemonia da branquitude, a economia política do cuidado e a ideologia do afeto
compulsório organizam a superexploração de trabalhadoras domésticas no espaço privado e na esfera pública.
Ancorado metodologicamente em uma perspectiva crítico-interseccional que articula Análise Crítica do
Discurso e uma etnografia de múltiplos sítios, combinando entrevistas em profundidade, análise documental
de arquivos legislativos e a etnografia em ambiente virtual de casos de repercussão midiática, o estudo se
estrutura em três eixos centrais. O primeiro capítulo examina a formação racial brasileira e o pacto narcísico da
branquitude, demonstrando como a retórica patronal do "como se fosse da família" mascara a hierarquização
cotidiana, a regulação do alimento e a expropriação do tempo de mulheres negras. O segundo capítulo analisa
o Estado como produtor de fraturas na justiça e aplicador de uma necropolítica difusa por meio de casos
emblemáticos: a violência disciplinar-carcerária no caso Luziane; a revitimização institucional e a disputa
discursiva em torno da suposta socioafetividade no caso Sônia Maria de Jesus; e a maternidade confiscada
aliada à descartabilidade de infâncias periféricas na morte do menino Miguel. Por fim, o terceiro capítulo
mapeia a história de exclusão jurídica programada e as lutas políticas da categoria pelo reconhecimento como
classe trabalhadora, destacando o pioneirismo das biografias de Laudelina de Campos Mello e Lenira
Carvalho, além de demonstrar a colonialidade do trabalho doméstico e a espoliação ontológica do tempo nas
situações contemporâneas de trabalho análogo à escravidão. Conclui-se que o lar burguês brasileiro atua como
um microestado de exceção, onde a soberania senhorial e o mito da democracia racial são confrontados pela
agência política das trabalhadoras e pela exigência de uma isonomia material que repare as assimetrias
coloniais que ainda estruturam o cuidado no país.