O BATISMO DA JUREMA OU COMO NASCE O SEGREDO: Os povos indígenas do Brígida (Orocó-PE)
Povos indígenas do nordeste; antropologia da religião; jurema sagrada
Como nasce um segredo? O segredo constitui um elemento fundamental da religiosidade indígena do Submédio São Francisco,
atuando como um dispositivo que limita, ao mesmo tempo que demarca, o acesso de agentes externos a saberes esotéricos e rituais que operam
como marcadores étnicos e grupais. Esta tese analisa o processo de emergência étnica, territorialização e reorganização sociocultural de famílias
Pankará e Atikum reassentadas no Perímetro Público Irrigado Brígida, em Orocó (PE), reassentamento criado como compensação do desterro
compulsório provocado pela construção da Barragem de Itaparica. Mais especificamente, destaco, dentro do contexto religioso desses coletivos, o
ritual de "batizado da jurema", que funciona como o dispositivo político-religioso estruturante que funda um regime de legitimação da governança
local, convertendo o espaço do reassentamento em território indígena. Adicionalmente, empreende-se uma análise das relações sociais e
econômicas da agricultura no São Francisco, desvelando como essa dinâmica organiza a própria sociedade rural no perímetro. No plano
teórico-metodológico, realiza-se uma abordagem da religião godelieriana, que compreende a religiosidade como componente interno e necessário
das relações de produção e poder. A partir da metáfora marxista da "câmara escura", a investigação demonstra como a infraestrutura material da
mobilização social é invertida na consciência do grupo, que passa a creditar o sucesso do levantamento da aldeia e de suas conquistas políticas à
força dos Encantados.