“MORAR NO IBURA É RESISTIR”: UMA ANÁLISE DA ESTRUTURA RACIALIZADA NA CONSTRUÇÃO DO BAIRRO
Racismo ambiental. Justiça socioambiental. Gênero. Ibura. Resistência comunitária.
Esta dissertação analisa as experiências vividas por mulheres integrantes do Coletivo Horta Comunitária Mãos de Milagres, localizado no bairro do Ibura, Recife (PE), diante das desigualdades socioambientais e dos eventos climáticos extremos. Partindo da compreensão de que os impactos ambientais são distribuídos de forma desigual no espaço urbano, a pesquisa investiga como raça, gênero e território se articulam na produção de vulnerabilidades e na construção de estratégias coletivas de resistência. O estudo fundamenta-se nos debates sobre justiça socioambiental, racismo ambiental, interseccionalidade e corpo-território, compreendendo que as condições de exposição aos riscos ambientais refletem processos históricos de segregação socioespacial e de negação de direitos a populações periféricas. Trata- se de uma pesquisa qualitativa de abordagem fenomenológica, desenvolvida por meio de entrevistas semiestruturadas realizadas com mulheres participantes do Coletivo Horta Comunitária Mãos de Milagres. A análise buscou compreender os significados atribuídos pelas participantes às suas experiências no território, considerando suas percepções, memórias, sentimentos e formas de enfrentamento das adversidades socioambientais presentes no cotidiano. Os resultados evidenciam que as mulheres vivenciam múltiplas vulnerabilidades associadas à precariedade da infraestrutura urbana, à insuficiência de saneamento básico, ao abastecimento irregular de água e à recorrente exposição aos impactos das chuvas intensas e dos alagamentos. As narrativas revelam que essas experiências produzem inseguranças materiais e emocionais, afetando as formas de habitar e perceber o território. Contudo, o estudo demonstra que tais mulheres não se constituem apenas como sujeitas afetadas pelas desigualdades estruturais. As experiências compartilhadas evidenciam a construção de redes de solidariedade, práticas de cuidado e formas coletivas de organização comunitária que fortalecem a capacidade de enfrentamento das adversidades e contribuem para a permanência digna no território. Nesse contexto, o Coletivo Horta Comunitária Mãos de Milagres destaca- se como uma experiência significativa de resistência socioambiental, promovendo segurança alimentar, fortalecimento dos vínculos comunitários, valorização dos saberes locais e ampliação do protagonismo feminino. Conclui-se que o racismo ambiental constitui elemento central para compreender a distribuição desigual das vulnerabilidades socioambientais no Ibura, incidindo de forma mais intensa sobre mulheres negras periféricas. Ao mesmo tempo, a pesquisa evidencia que essas mulheres produzem estratégias de resistência e transformação social que desafiam as estruturas de exclusão historicamente construídas. Como contribuição, o estudo fortalece as discussões no campo dos Direitos Humanos ao reconhecer as experiências e os saberes das mulheres periféricas como fundamentais para a compreensão e o enfrentamento das injustiças socioambientais em contextos urbanos.