ESTADO DE EXCEÇÃO COMO REGRA: RACISMO DE ESTADO E O ESTADO DE COISAS INCONSTITUCIONAL
Racismo de Estado; Estado de Coisas Inconstitucional; Sistema Penitenciário; Estado de Exceção; Governamentalidade.
A presente dissertação analisa de que maneira a declaração do Estado de Coisas Inconstitucional (ECI) no sistema prisional brasileiro, no âmbito da Arguição de Descumprimento de Preceito Fundamental (ADPF) 347, opera como uma tecnologia de governamentalidade que normaliza o estado de exceção permanente imposto à população negra. O objetivo geral é investigar como a declaração do ECI, sob a égide do racismo de Estado, funciona como um dispositivo que administra e perpetua a crise carcerária, em vez de solucioná-la. Os objetivos específicos são analisar os mecanismos pelos quais foi implantado o racismo no Brasil; identificar as características de um estado de exceção direcionado a essa população no sistema penitenciário; e investigar a função do Estado de Coisas Inconstitucional, à luz da ADPF 347, a partir de uma perspectiva crítica. A hipótese central é que, ao focar em uma racionalidade gerencial, o ECI normaliza a crise sem confrontar suas raízes no racismo estrutural, tornando-se parte do problema que alega resolver. A metodologia adota uma abordagem qualitativa, com uma epistemologia crítica e decolonial, como Foucault (2010), Mbembe (2016), Agamben (2004, 2007), Zaffaroni (2019), Wacquant (1999), Fanon (2022), Maldonado-Torres (2022), Quijano (2005), Gramsci (2024), utilizando-se do estudo de caso da ADPF 347 e da análise documental de seus desdobramentos, como o Plano Pena Justa, para investigar os efeitos da decisão. A pesquisa se estrutura a partir da análise da genealogia do racismo como paradigma fundador do Estado moderno e tecnologia de poder, passando pela compreensão da formação sócio-histórica brasileira que resulta em violações sistêmicas, e culminando na análise crítica do ECI como uma ferramenta que transforma uma crise de violência racial em um problema de gestão administrativa.